Consequência de uma pausa...
Enfim, um indivíduo de ideias abertas
A coceira no ouvido atormentava. Pegou o molho de chaves, enfiou a mais fininha na cavidade. Coçou de leve o pavilhão, depois afundou o orifício encerado. E rodou, virou a pontinha da chave em beatitude, à procura daquele ponto exato em que cessaria a coceira.
Até que, traque, ouviu o leve estalo e, a chave enfim no seu encaixe, percebeu que a cabeça lentamente se abria.
(Marina Colasanti. Contos de Amor Rasgado. Rio de Janeiro: Rocco, 1986, p.11)
Eu sei, mas não devia
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(Marina Colasanti)
Sinceramente, esses textos expressam nossa realidade cotidiana, seja subjetivamente, seja objetivamente. Acho, inclusive, que não preciso comentar, dizem simplesmente, tudo!
(Desculpem não publicar algo de "minha autoria", mas infelizmente hoje não tive tempo para escrever. De qualquer forma, vocês estão bem com a Marina Colasanti me "representando", rsrs. Talvez depois eu publique minhas impressões a respeito desses textos um tanto "surpreendentes".)
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domingo, 13 de março de 2011
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Então, leia (-se)
Consequência de uma pausa...
Não uma pausa qualquer, mas sim para ler, apreciar, admirar, fartar-me de letras, ideias, pensamentos e também relaxar. Tudo isso ao melhor modo dos blogs amigos que encontro mundo afora.
Hoje (re)descobri o quanto é bonito e apreciável ser simples. E não pense que basta ser simples no jeito de ser ou em um momento ou outro, é preciso ser simples diariamente, a todo momento, em todas as suas atitudes. Como já disse por aí , a simplicidade está nos olhos de quem vê, nos ouvidos de quem ouve, no coração e na alma de quem quer sentir...e além do mais, é capaz de abrir muitos caminhos e desvendar muitas verdades! Ser simples é ser simples e ponto final. A simplicidade não se "aprende" de uma hora para a outra, ela vem com o tempo, com a criação, com a convivência, com os aprendizados do dia-a-dia e assim também deve ser usada, e, mais apreciada por quem a vê nos outros.
Depois de uma super aula de gramática pela manhã, também li e interpretei gramática na poesia, fascinante, não? Aqui eu percebi o quanto a gramática está impregnada na nossa vida, os tempos verbais que o digam! "Que seja eterno enquanto dure" ou que caminhemos sempre, guardando as lembranças do que foi vivido, experimentando o presente e esperando pelo futuro, conjugando a vida da melhor forma possível.
Por falar nisso...o que é feito daqueles pertences antigos guardados numa caixinha dentro de uma gaveta no fundo do guarda-roupa? Todo mundo tem um pouco de Zé das Tralhas , isso é fato. Tem aquela foto especial, aquele cobertor preferido da infância, o primeiro uniforme, o primeiro sapatinho, aquele recadinho que aquela pessoa importante deixou pra você um dia, aquela revistinha de HQ antiga que você adorava e se divertia a bessa. Enfim, com o tempo só vamos acumulando o que guardar, e então vamos guardando, guardando, guardando e, quando nos damos conta, a casa está repleta de "quinquilharias" espalhadas. Mas quantas dessas quinquilharias você olha e pensa: "ah, vou guardar de novo, é tão especial pra mim!", raras são as que dizemos: "aonde eu estava com a cabeça quando guardei isso aqui?!". Porque de fato, o passado é sempre muito importante para todos nós. Ele nos acompanha pelo presente e pelo futuro, é como dizem, não há presente sem passado, nem futuro sem presente e passado!
Depois de terminar o último parágrafo com uma frase um tanto quanto "pseudo intelectual", por que não rir um pouco de algumas histórias que contam por aí ? Como sempre digo, educação é fundamental e sabermos nos comportar nos lugares é mais ainda, ou seja, viver em sociedade não é fácil, mas com um pouquinho de bom-senso, educação e sabedoria, vive-se bem! Quem nunca errou, ou, agiu mal? Entretanto, o importante depois que tudo passou é reconhecer o erro, se redimir e não voltar a cometer o mesmo erro. Isso também não é fácil, mas pode ser feito, vamos treinando, ok?! E para que fique claro, ninguém é superior a ninguém, todos são iguais, seja perante as leis que regem a sociedade (tá, é utópico, mas deveria), seja perante as leis que regem a religião. Eu posso ser melhor que você em alguma coisa, mas você é melhor que eu em outra, e assim, ficamos quites. Como uma continha de 1+1, e é assim que também devemos agir, somando uns para as vidas dos outros e acrescentando tudo no mundo, para que possamos sempre aprender mais e mais e tornarmo-nos mais iguais ainda.
Ah! Falando em igualdade, também surgiu a questão preconceituosa . Sim, por mais que já tenhamos evoluído e amadurecido os "pré-conceitos" se perpetuam e disseminam facilmente. Como disse anteriormente, ninguém é superior a ninguém, apenas devemos aprender a matemática da vida, essa é a conta ou teoria matemática mais fácil de todas e que, com certeza, trará mais benefícios.
E tudo isso nos remete à Educação e Gentileza do ser humano para com o ser humano. Será que é tão difícil assim sermos educados e gentis? Por que não nos esforçarmos um pouco mais para sermos melhores a cada dia? Sermos simples, educados, gentis e etc, é questão de sabermos no relacionar, nos comportar em sociedade e com a natureza. Sim, é difícil, muito difícil, seguir a "moral e os bons costumes" 24h durante 365 (ou 366) dias, no entanto, podemos nos aperfeiçoar e aprender a contornar os obstáculos que nos são impostos. Tudo não passa de "saber viver" (e eu sei que é absurdamente complicado tudo isso!).
Querem mais? Que tal falarmos um pouco de Clarice Lispector, a "nova queridinha das redes sociais"? Nunca Clarice (ou não) foi tão divulgada! E hoje ainda a li em dobro! Muitos nem chegam perto de compreender todo o sentido que está por trás dos escritos da célebre "ucraniana-brasileira", e mesmo assim, divulgam-na e mostram o quanto são "pseudo-intelectuais" (lógico, não generalizo!). No orkut de cada 10 perfis que alguém visita cerca de 6 tem alguma frase de Clarice no "Quem Sou Eu". E eu me incluo nessa "pseudo-pesquisa", afinal, sou uma grande fã e admiradora, e estou ciente do que muitas daquelas palavras dizem, já li Laços de Família (2 vezes por sinal), a complexa obra A Hora da Estrela, já assisti à peça Simplesmente Eu - Clarice Lispector (com Beth Goulart) e "coisas" espalhadas por aí, e sei também que isso não é suficiente, porque Clarice para mim, está além de qualquer mero entendimento que possamos tirar de uma simples leitura cotidiana ou preparatória para vestibular. Porém, não deve ser, em momento algum, deixada de lado, deixada de ser apreciada e de alcançar a todos, porque qualquer leitura é sempre bem vinda, desde que façamos bom uso da mesma.
Bom, depois disso tudo, pode-se concluir que toda leitura nos acresceta. Como deu para perceber, uma leitura leva à outra, que por sua vez nos remete à outra e assim vai tudo se encaixando num ciclo sem fim. Poderia ficar aqui e ainda escrever de outros tantos blogs que li hoje, mas com esse sedentarismo corro o risco de ficar Obesa , o que minha concepção de vida não permite de forma alguma (nem minha mãe nutricionista!). Tudo se funde numa total Sinestesia , que deve ser apreciada e admirada sempre que pudermos, assim como as Nuvens e as simples ideias infantis , pois, com certeza, temos muito o que aprender com as crianças!
Fica aqui meu carinho, meu abraço e beijo para todos os leitores, e, a dica para que apreciem os blogs aqui citados indiretamente através dos links e dos assuntos, vale muito a pena fazer parter e curtir essa sinestesia cultural. Para os que não foram citados, não se preocupem, terá uma próxima vez e provavelmente não os visitei por falta de tempo!
Não uma pausa qualquer, mas sim para ler, apreciar, admirar, fartar-me de letras, ideias, pensamentos e também relaxar. Tudo isso ao melhor modo dos blogs amigos que encontro mundo afora.
Hoje (re)descobri o quanto é bonito e apreciável ser simples. E não pense que basta ser simples no jeito de ser ou em um momento ou outro, é preciso ser simples diariamente, a todo momento, em todas as suas atitudes. Como já disse por aí , a simplicidade está nos olhos de quem vê, nos ouvidos de quem ouve, no coração e na alma de quem quer sentir...e além do mais, é capaz de abrir muitos caminhos e desvendar muitas verdades! Ser simples é ser simples e ponto final. A simplicidade não se "aprende" de uma hora para a outra, ela vem com o tempo, com a criação, com a convivência, com os aprendizados do dia-a-dia e assim também deve ser usada, e, mais apreciada por quem a vê nos outros.
Depois de uma super aula de gramática pela manhã, também li e interpretei gramática na poesia, fascinante, não? Aqui eu percebi o quanto a gramática está impregnada na nossa vida, os tempos verbais que o digam! "Que seja eterno enquanto dure" ou que caminhemos sempre, guardando as lembranças do que foi vivido, experimentando o presente e esperando pelo futuro, conjugando a vida da melhor forma possível.
Por falar nisso...o que é feito daqueles pertences antigos guardados numa caixinha dentro de uma gaveta no fundo do guarda-roupa? Todo mundo tem um pouco de Zé das Tralhas , isso é fato. Tem aquela foto especial, aquele cobertor preferido da infância, o primeiro uniforme, o primeiro sapatinho, aquele recadinho que aquela pessoa importante deixou pra você um dia, aquela revistinha de HQ antiga que você adorava e se divertia a bessa. Enfim, com o tempo só vamos acumulando o que guardar, e então vamos guardando, guardando, guardando e, quando nos damos conta, a casa está repleta de "quinquilharias" espalhadas. Mas quantas dessas quinquilharias você olha e pensa: "ah, vou guardar de novo, é tão especial pra mim!", raras são as que dizemos: "aonde eu estava com a cabeça quando guardei isso aqui?!". Porque de fato, o passado é sempre muito importante para todos nós. Ele nos acompanha pelo presente e pelo futuro, é como dizem, não há presente sem passado, nem futuro sem presente e passado!
Depois de terminar o último parágrafo com uma frase um tanto quanto "pseudo intelectual", por que não rir um pouco de algumas histórias que contam por aí ? Como sempre digo, educação é fundamental e sabermos nos comportar nos lugares é mais ainda, ou seja, viver em sociedade não é fácil, mas com um pouquinho de bom-senso, educação e sabedoria, vive-se bem! Quem nunca errou, ou, agiu mal? Entretanto, o importante depois que tudo passou é reconhecer o erro, se redimir e não voltar a cometer o mesmo erro. Isso também não é fácil, mas pode ser feito, vamos treinando, ok?! E para que fique claro, ninguém é superior a ninguém, todos são iguais, seja perante as leis que regem a sociedade (tá, é utópico, mas deveria), seja perante as leis que regem a religião. Eu posso ser melhor que você em alguma coisa, mas você é melhor que eu em outra, e assim, ficamos quites. Como uma continha de 1+1, e é assim que também devemos agir, somando uns para as vidas dos outros e acrescentando tudo no mundo, para que possamos sempre aprender mais e mais e tornarmo-nos mais iguais ainda.
Ah! Falando em igualdade, também surgiu a questão preconceituosa . Sim, por mais que já tenhamos evoluído e amadurecido os "pré-conceitos" se perpetuam e disseminam facilmente. Como disse anteriormente, ninguém é superior a ninguém, apenas devemos aprender a matemática da vida, essa é a conta ou teoria matemática mais fácil de todas e que, com certeza, trará mais benefícios.
E tudo isso nos remete à Educação e Gentileza do ser humano para com o ser humano. Será que é tão difícil assim sermos educados e gentis? Por que não nos esforçarmos um pouco mais para sermos melhores a cada dia? Sermos simples, educados, gentis e etc, é questão de sabermos no relacionar, nos comportar em sociedade e com a natureza. Sim, é difícil, muito difícil, seguir a "moral e os bons costumes" 24h durante 365 (ou 366) dias, no entanto, podemos nos aperfeiçoar e aprender a contornar os obstáculos que nos são impostos. Tudo não passa de "saber viver" (e eu sei que é absurdamente complicado tudo isso!).
Querem mais? Que tal falarmos um pouco de Clarice Lispector, a "nova queridinha das redes sociais"? Nunca Clarice (ou não) foi tão divulgada! E hoje ainda a li em dobro! Muitos nem chegam perto de compreender todo o sentido que está por trás dos escritos da célebre "ucraniana-brasileira", e mesmo assim, divulgam-na e mostram o quanto são "pseudo-intelectuais" (lógico, não generalizo!). No orkut de cada 10 perfis que alguém visita cerca de 6 tem alguma frase de Clarice no "Quem Sou Eu". E eu me incluo nessa "pseudo-pesquisa", afinal, sou uma grande fã e admiradora, e estou ciente do que muitas daquelas palavras dizem, já li Laços de Família (2 vezes por sinal), a complexa obra A Hora da Estrela, já assisti à peça Simplesmente Eu - Clarice Lispector (com Beth Goulart) e "coisas" espalhadas por aí, e sei também que isso não é suficiente, porque Clarice para mim, está além de qualquer mero entendimento que possamos tirar de uma simples leitura cotidiana ou preparatória para vestibular. Porém, não deve ser, em momento algum, deixada de lado, deixada de ser apreciada e de alcançar a todos, porque qualquer leitura é sempre bem vinda, desde que façamos bom uso da mesma.
Bom, depois disso tudo, pode-se concluir que toda leitura nos acresceta. Como deu para perceber, uma leitura leva à outra, que por sua vez nos remete à outra e assim vai tudo se encaixando num ciclo sem fim. Poderia ficar aqui e ainda escrever de outros tantos blogs que li hoje, mas com esse sedentarismo corro o risco de ficar Obesa , o que minha concepção de vida não permite de forma alguma (nem minha mãe nutricionista!). Tudo se funde numa total Sinestesia , que deve ser apreciada e admirada sempre que pudermos, assim como as Nuvens e as simples ideias infantis , pois, com certeza, temos muito o que aprender com as crianças!
Fica aqui meu carinho, meu abraço e beijo para todos os leitores, e, a dica para que apreciem os blogs aqui citados indiretamente através dos links e dos assuntos, vale muito a pena fazer parter e curtir essa sinestesia cultural. Para os que não foram citados, não se preocupem, terá uma próxima vez e provavelmente não os visitei por falta de tempo!
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Guerreiros da Luz
Consequência de uma pausa...
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| Acervo Pessoal |
"Os guerreiros da luz estão no mundo, fazem parte do mundo, e ao mundo foram enviados sem alforge e sem sandálias. Muitas vezes são covardes e nem sempre agem certo. Por vezes acham-se indignos de qualquer benção ou milagre. Muitas vezes acham que as suas vidas não têm sentido... Por isso são guerreiros da luz: porque erram, porque se interrogam, porque acreditam. Porque continuam a procurar um sentido, e acabarão por encontrá-lo.”
(Sinceramente, não encontrei o autor, lembro que retirei de um livro, não sei qual, desculpas, rs.)
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Feliz Ano Novo e a condição de ser humano
Nessa terça-feira aproveitei uma viagem no melhor estilo "De volta para minha terra" (para maiores esclarecimentos a cidade é Goianésia - GO) para ler um livro. O escolhido da vez foi "Feliz Ano Novo", um livro de contos do célebre Rubem Fonseca, o qual eu estava anciosamente esperando para iniciar a leitura, tanto foi que consegui ler praticamente todo o livro na viagem de 2h30min, deixei 2 contos para terminar ao chegar em casa, visto que precisei dar uma cochilada na estrada, rs.
Feliz Ano Novo foi lançado no ano de 1975, em época de ditadura militar no Brasil. Mas, no fim de 1976, depois de já terem sido vendidos mais de 30 mil exemplares, o Departamento de Polícia Federal recolheu todos os exemplares devido a um despacho do Ministro da Justiça da época, Armando Falcão, o qual proibia a publicação e circulação do referido livro. Em 1977 o escritor entrou com um processo contra a União e somente em 1989 a obra foi liberada pelo Tribunal Regional Federal.
O livro consta de 15 contos, obviamente muito bem escritos, que nos levam a refletir sobre a própria sociedade e suas atitudes e, ainda, sobre o instindo animal que todo ser humano possui, uma vez que, como já disse em posts anteriores, muitas vezes nos esquecemos desse "pequeno detalhe" e nos julgamos acima de tudo e todos. Creio que justamente por analisar sobre as ações humanas, seus instintos e pensamentos mais pervertidos, depravados e sujos os políticos da época decidiram por suspender o livro e "livrar a sociedade" de tal análise, que diga-se de passagem, é totalmente verdadeira.
Embora sejam contos ficcionais a impressão que tenho é que existe mais realidade que ficção nesses escritos. Pode ser que nos deixam imagens feias, algumas sensações de nojo, com palavreados nem um pouco cultos e sim coloquiais, usados principalmente pelas camadas mais simples da sociedade. Mas "a verdade está nos olhos de quem vê", e para mim esse livro mostra a realidade. Ele foi escrito na década de 70 e vale para a realidade que estamos vivendo agora e sempre vivemos, ele nos mostra verdades universais, válidas para todos os territórios e épocas.
Essa obra nos mostra os instintos humanos que muitos suprimem no dia-a-dia, por não serem bem vistos pela sociedade ou por realmente fugirem das leis que deviam manter a ordem numa civilização.Vou me apropriar dos dizeres da contra-capa do livro e aqui esclarecer melhor o que gostaria de dizer-lhes.
"Feliz Ano Novo é, do ponto de vista temático, uma coletânea de faits divers da vida diária: mesquinhas ocorrências, histórias sem glória e sem heroísmo que nos jornais ganhariam um canto das páginas policiais. [...] O que inquieta no livro é que esse mundo marginal distante se vai aos poucos revelando como nosso prórpio mundo, onde os desvios são cada vez mais a norma." (Zuenir Ventura, Visão, 10.11.75)
"A violência, em Rubem Fonseca, não é uma atitude; é simplesmente um meio de expressão que se impõe, uma verdade gritada no faroeste urbano." (Hélio Pólvora, Jornal do Brasil, 8.10.75)
"Para Rubem Fonseca, a questão básica não é o crime, a pornografia e a violência, mas exatamente a desmistificação dos atuais conceitos de violência, pornografia e crime." (Affonso Romano de Sant'Anna, Veja, 05.11.75)
Acredito que agora vocês já devem ter percebido os temas centrais do livro e o quanto são, digamos que, fortes. Com certeza quem não tem um olhar crítico é obrigado a ter estômago e sangue frio para ler essa obra, pois quem tem já está acostumado com as verdades bem ditas. Os contos indicam o que já passou ou o que se passa na mente de muitos, mas que o bom senso e a questão de ser um ser humano "racional e civilizado" - ou ao menos a lembrança e os resquícios disso e, o medo de ser preso - o levam a despensar e não fazer. Acontece que nas obras, os crimes são cometidos e a maneira/modo é considerada normal.
Não existe nenhum esteriótipo no livro, muito menos pensamentos no "melhor" estilo burguês. Tanto homens ricos como homens miseráveis cometem crimes e atos totalmente brutais e horrendos. Pensando bem, acho até que o livro chegou às mãos de alguns e serviu de inspiração para muitos bandidos por aí, pois hoje em dia os crimes relatados nos textos podem ser vistos em manchetes. O interessante é que já estamos tão acostumados com brutalidade, crimes, manchetes, noticiários policiais que a importância dada a esses atos não nos chocam e nem nos "acordam" para a vida que estamos levando, para os riscos que estamos correndo diariamente. O que estamos vivenciando são os sintomas da banalização a que estamos submetidos com tantas informações superficiais e surpléfuas, além das disputas midiáticas. Crimes viram palcos para que herois surjam - como aconteceu na caso dos Nardoni, no qual o promotor Francisco Cembranelli foi considerado um grande heroi e tudo na TV parecia uma peça de teatro, com direito a comemoração com fogos de artifício no final - e a atenção das pessoas estão voltadas para o que "cai na mídia" e, principalmente, para si mesmas, para o próprio umbigo, como se o que acontece na sociedade está extremamente longinquo da realidade dela, o que, sinto dizer-lhes, não é a verdade.
Voltando...todos estamos aptos a cometer crimes e ter os pensamentos mais impróprios possíveis, tais como nos é mostrado nos contos do livro. Os instintos animalescos estarão sempre conosco, podemos andar vestidos, virar vegetarianos ou não maltratar os animais, nos comportar numa mesa e seguir regras de etiqueta e simplesmente - ou dificilmente, isso é relativo - viver em sociedade, mas, no fundo sempre temos os nossos instintos abafados e prontos para nos subir a cabeça quando algo dá errado, está fora do "normal" ou do que esperamos. Quando a adrenalina é liberada em alta quantidade nem mesmo temos consciência do que estamos fazendo, e são nesses momentos que os atos mais impensados possíveis podem se concretizar e chocar após tudo ter acontecido. Para exemplificar, você tem a consciência de que no seu estado normal não matará ninguém, nem mesmo um animal, mas se um criminoso adentrar sua casa e fizer atos brutais com sua família e você assistindo a tudo conseguir pegar numa arma, o que fará?
Então, fica aí a dica para quem se interessar. Eu gostei bastante. Poderia ficar horas e horas escrevendo sobre cada conto, sobre o meu ponto de vista de cada parte, pois, com certeza, ainda há muito o que se dizer sobre os contos, mas, agora não dá, deixo para mais tarde. E podem deixar que não me esquecerei disso...com o tempo vamos comentando sobre os contos por aqui, afinal, são tão universais, não é mesmo?
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Feliz Ano Novo foi lançado no ano de 1975, em época de ditadura militar no Brasil. Mas, no fim de 1976, depois de já terem sido vendidos mais de 30 mil exemplares, o Departamento de Polícia Federal recolheu todos os exemplares devido a um despacho do Ministro da Justiça da época, Armando Falcão, o qual proibia a publicação e circulação do referido livro. Em 1977 o escritor entrou com um processo contra a União e somente em 1989 a obra foi liberada pelo Tribunal Regional Federal.
O livro consta de 15 contos, obviamente muito bem escritos, que nos levam a refletir sobre a própria sociedade e suas atitudes e, ainda, sobre o instindo animal que todo ser humano possui, uma vez que, como já disse em posts anteriores, muitas vezes nos esquecemos desse "pequeno detalhe" e nos julgamos acima de tudo e todos. Creio que justamente por analisar sobre as ações humanas, seus instintos e pensamentos mais pervertidos, depravados e sujos os políticos da época decidiram por suspender o livro e "livrar a sociedade" de tal análise, que diga-se de passagem, é totalmente verdadeira.
Embora sejam contos ficcionais a impressão que tenho é que existe mais realidade que ficção nesses escritos. Pode ser que nos deixam imagens feias, algumas sensações de nojo, com palavreados nem um pouco cultos e sim coloquiais, usados principalmente pelas camadas mais simples da sociedade. Mas "a verdade está nos olhos de quem vê", e para mim esse livro mostra a realidade. Ele foi escrito na década de 70 e vale para a realidade que estamos vivendo agora e sempre vivemos, ele nos mostra verdades universais, válidas para todos os territórios e épocas.
Essa obra nos mostra os instintos humanos que muitos suprimem no dia-a-dia, por não serem bem vistos pela sociedade ou por realmente fugirem das leis que deviam manter a ordem numa civilização.Vou me apropriar dos dizeres da contra-capa do livro e aqui esclarecer melhor o que gostaria de dizer-lhes.
"Feliz Ano Novo é, do ponto de vista temático, uma coletânea de faits divers da vida diária: mesquinhas ocorrências, histórias sem glória e sem heroísmo que nos jornais ganhariam um canto das páginas policiais. [...] O que inquieta no livro é que esse mundo marginal distante se vai aos poucos revelando como nosso prórpio mundo, onde os desvios são cada vez mais a norma." (Zuenir Ventura, Visão, 10.11.75)
"A violência, em Rubem Fonseca, não é uma atitude; é simplesmente um meio de expressão que se impõe, uma verdade gritada no faroeste urbano." (Hélio Pólvora, Jornal do Brasil, 8.10.75)
"Para Rubem Fonseca, a questão básica não é o crime, a pornografia e a violência, mas exatamente a desmistificação dos atuais conceitos de violência, pornografia e crime." (Affonso Romano de Sant'Anna, Veja, 05.11.75)
Acredito que agora vocês já devem ter percebido os temas centrais do livro e o quanto são, digamos que, fortes. Com certeza quem não tem um olhar crítico é obrigado a ter estômago e sangue frio para ler essa obra, pois quem tem já está acostumado com as verdades bem ditas. Os contos indicam o que já passou ou o que se passa na mente de muitos, mas que o bom senso e a questão de ser um ser humano "racional e civilizado" - ou ao menos a lembrança e os resquícios disso e, o medo de ser preso - o levam a despensar e não fazer. Acontece que nas obras, os crimes são cometidos e a maneira/modo é considerada normal.
Não existe nenhum esteriótipo no livro, muito menos pensamentos no "melhor" estilo burguês. Tanto homens ricos como homens miseráveis cometem crimes e atos totalmente brutais e horrendos. Pensando bem, acho até que o livro chegou às mãos de alguns e serviu de inspiração para muitos bandidos por aí, pois hoje em dia os crimes relatados nos textos podem ser vistos em manchetes. O interessante é que já estamos tão acostumados com brutalidade, crimes, manchetes, noticiários policiais que a importância dada a esses atos não nos chocam e nem nos "acordam" para a vida que estamos levando, para os riscos que estamos correndo diariamente. O que estamos vivenciando são os sintomas da banalização a que estamos submetidos com tantas informações superficiais e surpléfuas, além das disputas midiáticas. Crimes viram palcos para que herois surjam - como aconteceu na caso dos Nardoni, no qual o promotor Francisco Cembranelli foi considerado um grande heroi e tudo na TV parecia uma peça de teatro, com direito a comemoração com fogos de artifício no final - e a atenção das pessoas estão voltadas para o que "cai na mídia" e, principalmente, para si mesmas, para o próprio umbigo, como se o que acontece na sociedade está extremamente longinquo da realidade dela, o que, sinto dizer-lhes, não é a verdade.
Voltando...todos estamos aptos a cometer crimes e ter os pensamentos mais impróprios possíveis, tais como nos é mostrado nos contos do livro. Os instintos animalescos estarão sempre conosco, podemos andar vestidos, virar vegetarianos ou não maltratar os animais, nos comportar numa mesa e seguir regras de etiqueta e simplesmente - ou dificilmente, isso é relativo - viver em sociedade, mas, no fundo sempre temos os nossos instintos abafados e prontos para nos subir a cabeça quando algo dá errado, está fora do "normal" ou do que esperamos. Quando a adrenalina é liberada em alta quantidade nem mesmo temos consciência do que estamos fazendo, e são nesses momentos que os atos mais impensados possíveis podem se concretizar e chocar após tudo ter acontecido. Para exemplificar, você tem a consciência de que no seu estado normal não matará ninguém, nem mesmo um animal, mas se um criminoso adentrar sua casa e fizer atos brutais com sua família e você assistindo a tudo conseguir pegar numa arma, o que fará?
Então, fica aí a dica para quem se interessar. Eu gostei bastante. Poderia ficar horas e horas escrevendo sobre cada conto, sobre o meu ponto de vista de cada parte, pois, com certeza, ainda há muito o que se dizer sobre os contos, mas, agora não dá, deixo para mais tarde. E podem deixar que não me esquecerei disso...com o tempo vamos comentando sobre os contos por aqui, afinal, são tão universais, não é mesmo?
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