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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

"O Médico"

Consequência de uma pausa...


Como seria um médico perfeito, ou melhor, um bom médico para você?
Talvez não seja aquele que apenas medica, mas sim aquele que orienta, escuta, observa, distribui atenção e carinho, preocupa-se, doa seu tempo e seus pensamentos para que o melhor seja proporcionado ao próximo.
Romantismo da minha parte? Creio que estamos muito mal acostumados com os ruins, de forma que os bons não estão tendo a visibilidade e os devidos merecimentos. Existem inúmeros espalhados mundo afora, e eu tenho o maior prazer em ter contato com muitos professores bons médicos na minha faculdade, os quais sabem orientar e ensinar seus alunos os caminhos a serem seguidos para tornarem-se médicos humanos, e não médicos,  apenas. Vale ressaltar que eles ensinam, tentam, estão dispostos a isso, no entanto, nem todos os alunos estão dispostos a receber essas orientações e a levá-las à sua prática.
Médico qualquer um que se forma pode ser, mas ser médico, ser um médico humano, é diferente, nem todos têm esse dom, nem todos são capazes ou estão aptos a tratar o próximo como gente igual a ele, como um ser humano que está sofrendo, que precisa de apoio, de auxilio, de ajuda, que precisa de alguém ao seu lado. E mesmo que o melhor não possa ser feito, que não exista condições, garanto que o esforço e a força de vontade em levar saúde - psíquica e física - para as pessoas já valem o bastante para ser reconhecido como um bom médico.
Pergunto-me, às vezes, o que me levou a querer ser médica. Por enquanto acredito que seja por gostar de conviver, por gostar de gente, por gostar de ajudar os que precisam, por sentir prazer em um sorriso recebido após um ato por mais simples que seja. Hoje, por exemplo, tinha um seminário de microbiologia para ir, fiquei esperando o elevador, e assim que a porta abriu, duas senhoras de idade, uma de muleta, inclusive, apareceram a minha frente, dei um sorriso e um bom dia, e fui retribuída com outros sorrisos e bom dias, com carinho, elas sentiram-se a vontade para me perguntar onde poderiam fazer o exame de ultrassom. Acho que é por aí que um bom médico é formado, quando as pessoas se sentem a vontade com ele, pois vejo e tenho contato, diariamente, com pessoas que não se interessam pelo próximo, que são indiferentes à dor de quem está ao seu lado e mesmo assim estão cursando medicina. O que as trouxe aqui? Dinheiro e status são as primeiras palavras que me vêm à mente. Estudantes de medicina que acham ruim ter contato com gente, que reclamam das práticas médicas na comunidade que temos durante o curso inteiro, que não se dão "ao trabalho" de desejar um bom dia aos pacientes que cruzam nos corredores do prédio em que temos alguns seminários, não deveriam ser estudantes de medicina. Apesar de tudo, ainda tenho esperanças de que durante esse processo em que são simples estudantes possam amadurecer e repensar suas atitudes.
Um bom médico não se faz sozinho, um médico só se torna bom médico com a ajuda dos pacientes, é um trabalho construído aos poucos, a cada consulta e, principalmente, juntos. Não imagino como seja perder um paciente, mas creio ser muito doloroso. E como se portar diante de tal acontecimento? Nosso médico da obra de arte observa, expressa tristeza, dúvida, talvez aquela sensação inacreditável de impotência, de que quem comanda tudo ainda é Deus, compartilho minha ideia sobre isso assim que estiver ganho mais experiência...
O interessante é que o bom médico também é relativo, de acordo com cada paciente. Quem nunca foi à um médico por indicação de um amigo ou parente e saiu do consultório decepcionado porque não foi o que esperava? Isso acontece, não é porque é um bom médico para um que será para todos, assim como, não são todos que estão prontos a receber os cuidados de um médico, seja ele bom ou não.
O que é ser bom ou ruim? O que é normal ou anormal? São questões próprias a cada um de nós, com certeza, entretanto, educação, respeito e dedicação ao próximo devem ser constantes. Tornam não só o médico bom, e sim toda a humanidade boa. E, tudo o que é trabalhado em conjunto, em sintonia, com vontade de todas as partes, possui chances de dar mais resultados positivos, satisfatórios. Acho que falta um pouco de coragem por parte dos próprios pacientes, em dizer ao médico o que está achando da consulta, o que achou disso ou daquilo. Pois saibam, médico não é o Deus na Terra, médico é um instrumento de Deus, assim como qualquer outra pessoa, de qualquer que seja a profissão, ele pode estar errado. Ele também é humano e tem seus problemas, também precisa de alguém para auxiliá-lo, ouvi-lo. Então, se algum dia não estiver gostando da consulta, por que não ir aos poucos dando sinais de que algo está te incomodando, por que não desviar um pouco o foco daquilo que está te causando mal estar, por que não falar ao médico que ele está diferente, que você esperava isso e aquilo? Não são todos os médicos que estão dispostos a receber críticas de pacientes, embora eu pense que isso ajuda na construção da relação médico-paciente. Muitos deixam com que o status que a profissão ainda tem em meio a sociedade subam à sua cabeça, tornam-se arrogantes, prepotentes e "donos da verdade", o que é lastimável, visto que muitas pessoas estão deixando de receber os devidos cuidados, de ter uma boa relação com seu médico porque o mesmo acha que está acima de tudo e de todos, que não precisa melhorar em nada e que "quem não gostou que procure outro e vá se arrepender longe". Sinceramente, esses não são médicos, esses são pessoas que sabem a teoria e desconhecem a boa prática. E, para mim, é uma desculpa esfarrapada aqueles que dizem que não recebem incentivos para melhorar, que o "sistema" o faz agir de tal maneira, que a falta de um salário digno o deixa desestimulado...O.K., desestimula, porém, não a ponto de esquecer todos os princípios, de acreditar que os sofrimentos da pessoa a sua frente são menores que os seus.
Enfim, ser bom médico vai muito além de apenas cursar uma faculdade de medicina com boas notas, ser bom médico é uma construção ao longo do tempo, que depende não só do médico e também de todos os que o cercam, de sua criação, educação e caráter. Ser bom médico é um desafio. Desafio esse que merece ser aceito por todos os estudantes e solucionado com louvor. Rubem Alves tem minha admiração, ao menos como escritor e emissor de mensagens reflexivas e verdadeiras, que podem, inclusive, orientar estudantes que estão perdidos em meio a um mundo de conceitos tão deturpados quanto o nosso!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Dica do dia

Consequência de uma pausa...

Férias é sinônimo de ler, escrever, passear, dormir mais que o necessário, viajar, aprender algo novo ou reforçar o que já aprendeu, enfim, férias é padecer na folga e na preguiça! Por que não curtir esse período assistindo filmes? Bom, tenho uma lista enorme aqui, quatro já se foram!

Desses quatro primeiros já vistos, indico dois. Chocantes, talvez espetaculares. Porém, poucos são os que gostam, até mesmo porque, impossível se sentir confortável diante desses filmes...

O primeiro é um drama, muito bem escrito e dirigido. "Confi@r" é uma obra reflexiva, principalmente para quem já tem filhos. Ele mostra a realidade e a dificuldade de se criar filhos, principalmente com as novas tecnologias. Mas não só isso, vai além, faz-no refletir sobre as relações entre pais e filhos, sobre a compreensão de sentimentos. Outro ponto é a questão de saber onde mora o perigo, porque, ao contrário do que imaginamos, ele pode estar ao nosso lado ou onde menos esperamos. E, como suportar e superar uma tragédia? O título eu interpretei de várias formas:
1. Até que ponto podemos confiar em alguém que conhecemos pela internet?
2. Como criar uma relação de confiança entre pais e filhos?
3. Diante de uma tragédia, seria o suficiente confiar no poder público para solucioná-la?
4. Após essa tragédia, como confiar em mais alguém? Para quem contar segredos e compartilhar sua vida?
5. É possível confiar de olhos fechados em quem está "sempre ao nosso lado"? (Essa foi uma das últimas perguntas, irão verificar na última cena do filme, ao final de tudo. Foi também uma das cenas que me deixou mais surpreendida e chocada, diga-se de passagem!)
Ah, não se esqueçam do lencinho para secar as lágrimas!



O segundo está me fazendo ir em busca do livro que serviu de suporte - embora quase sempre me decepcione com filmes baseados em livros, visto que o filme, geralmente, foge muito do livro e até mesmo muda os rumos das histórias e as mensagens. "A pele que habito", dirigido por ninguém mais ninguém menos que Pedro Almodóvar, é motivo para muito debate, já que Almodóvar caiu no conceito da maioria depois do filme "Abraços Partidos". Sendo assim, muitas dúvidas surgiram em consideração a esse suspense, no mínimo, curioso. Em relação a maioria, no geral, digo que poucos gostam por não ser um filme hollywoodiano, porque querendo ou não, estamos mais acostumados com filmes americanos, infelizmente. Alguns não sabem o que estão perdendo com filmes franceses, indianos, espanhóis, e até brasileiros, que ultimamente têm ganhado pontos positivos comigo.
Voltando...Em A Pele que Habito uma estória extraordinária se desenrola aos poucos. Há algum tempo não via, em um único filme, tantos temas para debates e reflexão misturados ao terror e à ciência. Os encaixes se fazem ao longo do filme, e assim vamos decifrando enigmas e compreendendo ações e reações das personagens. São tantas surpresas e imprevisibilidades que ao final nos vemos boquiabertos.
No momento, citarei algumas das reflexões que perambulam em minha mente...
1. Até onde a ciência é bem vinda e até que ponto o homem pode usá-la ao seu bel prazer?
2. Seis anos é muito tempo! Muitas transformações podem acontecer...
3. O que é loucura? Quando devemos considerar alguém louco?
4. Vingança é loucura? Vingança: não é justo mas é correto? E a justiça pelas próprias mãos?
5. Segredos que podem interferir na vida de outrem devem ser revelados?
6. A fidelidade de uma mãe pelo filho deve superar atos inescrupulosos promovidos pelo filho?
Ah, atentem-se para as obras de arte/pinturas/quadros da mansão. E, uma cena que me deixou desconcertada/enojada - depois descobri que não fora só eu -, a do "tigrão com a Vera", vocês saberão identificá-la e o porquê...
Por último, sinceramente, na minha humilde opinião, Elena Anaya superou Antonio Banderas no quesito interpretação. Ambos surpreendem, entretanto, ela mais que ele!
Confiram essa crítica: http://cinemacomrapadura.com.br/criticas/237267/a-pele-que-habito-almodovar-reitera-seu-potencial-de-contar-grandes-historias/



E questões que ambos os filmes geram: relação entre pai e filha e confiança.
1. O quanto um pai é capaz de suportar são/consciente atrocidades com sua filha? Qual a melhor maneira de agir?
2. Como se baseia a confiança de uma filha pelo pai em "estado de loucura"?

Enfim, são muitos detalhes, muitas estórias, muitas reviravoltas, vale a pena assistir a ambos os filmes! Caso não gostem, peço desculpas de antemão, mas gosto, realmente, não se discute! E, férias ou folga, tudo está valendo para suprir o tempo!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Onde andará o meu doutor?

Hoje, irei apenas compartilhar uma poesia encontrada em uma página de relacionamento que me deixou estarrecida, principalmente por corresponder a nossa lamentável realidade...
Sinceramente, estamos vivendo em um mundo de doentes!

Onde andará o meu doutor?
Tatiana Bruscky

Hoje acordei sentindo uma dorzinha,
aquela dor sem explicação, e uma palpitação,
resolvi procurar um doutor,
fui divagando pelo caminho...
lembrei daquele médico que me atendia vestido de branco
e que para mim tinha um pouco de pai, de amigo e de anjo...
o Meu Doutor que curava a minha dor,
não apenas a do meu corpo mas a da minha alma,
que me transmitia paz e calma!

Chegando à recepção do consultório,
fui atendida com uma pergunta:
“Qual o seu plano? “
Ah, o meu plano é viver mais e feliz!
é dar sorrisos, aquecer os que sentem frio
e preencher esse vazio que sinto agora!
Mas a resposta teria que ser outra...o meu plano de saúde!

Apresentei o documento do dito cujo
já meio suado, tanto quanto o meu bolso, e aguardei...
Quando fui chamada corri apressada,
ia ser atendida pelo Doutor,
aquele que cura qualquer tipo de dor,
entrei e o olhei, me surpreendi,
rosto trancado, triste e cansado...
será que ele estava adoentado?
é, quem sabe, talvez gripado
não tinha um semblante alegre,
provavelmente devido à febre...
dei um sorriso meio de lado e um bom dia...
Sobre a mesa, à sua frente,
um computador,
e no seu semblante a sua dor,
o que fizeram com o Doutor?

Quando ouvi a sua voz de repente:
O que a senhora sente?
Como eu gostaria de saber o que ELE estava sentindo...
parecia mais doente do que eu, a paciente...
Eu? ah! sinto uma dorzinha na barriga e uma palpitação
e esperei a sua reação,
vai me examinar, escutar a minha voz
auscultar o meu coração...
para minha surpresa apenas me entregou uma requisição e disse:
“peça autorização desses exames para conseguir a realização”...
quando li quase morri...

Tomografia computatorizada, ressonância magnética e cintilografia !

ai, meu Deus! que agonia!
eu só conhecia uma tal de abreugrafia...
só sabia o que era ressonar (dormir),
de magnético eu conhecia um olhar...
e cintilar só o das estrelas!
estaria eu à beira da morte? de ir para o céu?
iria morrer assim ao léu?
naquele instante timidamente pensei em falar:
terá o senhor uma amostra grátis
de calor humano para aquecer esse meu frio?
que fazer com essa sensação de vazio? e observe, Doutor,
o tal Pai da Medicina, o grego Hipócrates, acreditava que
A ARTE DA MEDICINA ESTAVA EM OBSERVAR.
Olhe para mim...
bem verdade que o juramento dele está ultrapassado!
médico não é sacerdote...
tem família e todos os problemas inerentes ao ser humano...
mas, por favor, me olhe, ouça a minha história!
preciso que o senhor me escute, ausculte
e examine!

Estou sentindo falta de dizer até aquele 33!
não me abandone assim de uma vez!
procure os sinais da minha doença e cultive a minha esperança!
alimente a minha mente e o meu coração...
me dê, ao menos, uma explicação!
O senhor não se informou se eu ando descalça... ando sim!
gosto de pisar na areia e seguir em frente
deixando as minhas pegadas pelas estradas da vida,
estarei errada?
ou estarei com o verme do amarelão?
existirá umas gotinhas de solução?

Será que já existe vacina contra o tédio?
ou não terá remédio?
que falta o senhor me faz, meu antigo Doutor!
cadê o Sccot, aquele da Emulsão?
que tinha um gosto horrível mas me deixava forte
que nem um Sansão!
e o Elixir? Paregórico e categórico,
e o chazinho de cidreira,
que me deixava a sorrir sem tonteiras?
será que pensei asneiras?
Ah! meu querido e adoentado Doutor!
sinto saudades
dos seus ouvidos para me escutar,
das suas mãos para me examinar,
do seu olhar compreensivo e amigo...
do seu pensar...
o seu sorriso que aliviava a minha dor...
que me dava forças para lutar contra a doença...
e que estimulava a minha saúde e a minha crença...
sairei daqui para um ataúde?
preciso viver e ter saúde!
por favor, me ajude!

Oh! meu Deus, cuide do meu médico e de mim,
caso contrário chegaremos ao fim...
porque da consulta só restou uma requisição
digitada em um computador
e o olhar vago e cansado do Doutor!
precisamos urgente dos nossos médicos amigos,
a medicina agoniza...
ouço até os seus gemidos...

Por favor, tragam de volta o meu Doutor!
estamos todos doentes e sentindo dor...
e peço, para o ser humano, uma receita de calor,
e para o exercício da medicina uma prescrição de amor!

Por fim, recomendo que assistam ao filme Patch Adams - O amor é contagioso. Muitos já devem ter visto, mas é sempre bom rever para refletirmos um pouco mais sobre nossas ações em prol do bem estar do lugar onde vivemos, das pessoas com as quais convivemos ou não e para a construção do mundo que queremos. Também recomendo que assistam à entrevista do "verdadeiro" Patch ao programa Roda Viva da TV Cultura, a qual está disponível no You Tube.

domingo, 10 de junho de 2012

Só lembranças

Consequência de uma pausa...
Em pleno sábado a noite de feriado resolvi assistir um filme antes de dormir. Escolhi o filme aleatoriamente, quer dizer, escolhi pelo título e nada mais, sem ler sinopse nem gênero. Quando vi que o Robert Pattison era o ator principal, já fui imaginando que não seria um filme dos melhores. Engano meu. Comecei a assistir sem expectativas e terminei o filme admirando a capacidade de atuação do Robert Pattison, muito além do que já tinha visto nos filmes da saga Crepúsculo, que por sinal, não gostei muito.
Através do filme "Lembranças", dirigido por Allen Coulter, percebi que pequenas atitudes cotidianas, como expressar um sentimento, são fundamentais. Além disso, ficou mais claro ainda para mim, que durante nossa vida e até mesmo depois de morrermos, somos feitos apenas de lembranças. Afinal, todas as nossas atitudes vêm de experiências vividas desde a infância - também há quem diga que vêm desde vidas passadas, mas isso não vem ao caso no momento - e ao morrermos é somente isso que deixamos. Tive mais certeza ainda de que o dinheiro não é tudo, ele até pode nos proporcionar momentos felizes e dignos, mas, repito, não é tudo. O dinheiro não é capaz de amar alguém, ele é objeto, óbvio que todos precisamos de muitos objetos, mas precisamos muito mais de amor. Quem não é amado, ou, melhor, não se sente amado, pode ter todo o dinheiro do mundo que não será feliz. E aí entra outra questão...qual a melhor forma de demonstrar que amamos alguém?
Passei a maior parte do filme indignada com a postura do pai do Tyler (Robert), e no final, percebi que ele não era totalmente um monstro. Lembrei-me que muitos monstros só são monstros por causa de seus sentimentos a flor da pele, conflituosos e pela incapacidade de demonstrá-los de maneira civilizada. Apesar de tudo, monstros não passam de seres humanos em conflito consigo mesmo. Um pecado da maioria dos filmes - que é questão de lógica e eu entendo - é mostrar apenas o ponto de vista da personagem principal. Nesse caso, por exemplo, vemos os personagens do ponto de vista do Tyler, portanto, somos facilmente influenciados, no final, percebemos junto dele que nem todos são como imaginamos, que é muito difícil demonstrarmos nossos sentimentos da "maneira correta" - se é que existe maneira correta para isso -, que julgamos demais as pessoas sem saber o que se passa com elas, quais são seus conflitos internos, seus sentimentos ou o porquê de tais atitudes, como dizem por aí, sempre achamos que "a grama do vizinho é mais verde", mas será? Todos temos sentimentos, todos temos medos, anseios, desejos, angústias, dúvidas e cada um tem seu jeito de expressar tudo isso.

Outro fato curioso, é a capacidade do ser humano para postergar momentos que podem ser vividos no presente. Já se perguntou porque demorou para dizer a alguém que o (a) amava? Seria medo? Pois é, por que temos tanto receio em dizer a alguém algo tão sublime? Por que temer as reações da pessoa diante de algo bom, visto que todos queremos e gostamos de ser amados? Imagino que seja porque dentro de nós temos marcas de momentos passados, talvez um dia ao nos declararmos alguém desdenhou ou ignorou, mesmo que não tenha sido por maldade, afinal, quem nunca teve um "amor de infância"? E qual a criança que desdenharia por pura maldade? Ou até mesmo nossos pais, em um dia corrido, que ignoraram tal declaração ou postergaram a reação que esperávamos. Essas são lembranças arquivadas dentro de nós, são marcas deixadas por nossas experiências ao longo do tempo, e como cada um tem as suas marcas, cada um tem a própria reação em relação aos acontecimentos, tem uma maneira de aceitar ou não, de reagir. E, o pior de tudo, é quando só nos damos conta do quanto foi uma má ideia postergar depois que uma tragédia ocorre. Por que esperamos que uma tragédia ocorra para aprendermos a amar, a nos expressar? Por que é preciso que alguém morra para percebemos que agimos de maneira errada? Por que somente através do sofrimento nos damos conta de que estávamos indo pelo pior dos caminhos? Talvez seja porque a tragédia nos acorda para a vida, e num piscar de olhos revivemos as lembranças arquivadas e também nos transformamos.
Diante de tais fatos, imaginem se eu não me acabei em lágrimas no final do filme?!! Sem sombra de dúvidas! Chorei até não poder mais, tanto pelos ensinamentos que nos levam a pensar em nossas vidas e atitudes, quanto pelo final totalmente inesperado, surpreendente e simultaneamente trágico e lindo. Nunca imaginei que um drama romântico pudesse me fazer tão bem humana e espiritualmente. Percebi que ainda tenho muito a aprender, que na teoria é tudo muito fácil, o difícil acontece na prática. Vocês acham que tudo o que eu disse acima eu pratico? Pelo contrário, a minha dificuldade em demonstrar sentimentos é tamanha que tenho até vergonha de comentar sobre isso. Chegou a hora de rever conceitos e ainda bem que sempre é tempo de mudanças...


quarta-feira, 27 de abril de 2011

História. Realidade. Tragédia.

Consequência de uma pausa...

A partir de 3 aulas recentes pensei nesse post. Uma aula de radioatividade (fissão e fusão nuclear = formação de bombas atômicas - produção de energia), outra de química orgânica com direito a saber dos poderes destrutivos do TNT (trinitroglicerina) e uma proposta de redação a respeito do papel das armas para a humanidade, com um ótimo intertexto com o filme Lord Of War (O Senhor das Armas - 2005). Acredito que vocês já compreenderam do que se trata os meus escritos de hoje, infelizmente, da nossa realidade, da capacidade destrutiva e autodestruição do ser humano.

Não é fácil falar de guerras, bombas, mortes, vidas - inocentes ou não -, desarmamento, armamento, destruição e tristeza. E, essa dificuldade maximiza-se quando, recentemente, uma tragédia ocorreu perto de nós, potencializada pelo uso de armas de fogo por pessoas civis. O infeliz acontecimento na escola Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, fez com que os discursos pró e contra o desarmamento voltassem mais veementes e categóricos. Estamos diante de um impasse, de difícil resolução, é certo alguns se desarmarem e outros não? E o direito a igualdade? Mas, e as mortes, as fatalidades, causadas por armas de fogo empregadas erroneamente? E as crianças que brincam com essas armas e acabam por machucar outras pessoas ou tornando-se mais violentas? E as reações a assaltos que poderiam não terminar em morte? E o direito a defesa que todo cidadão possui? E os bandidos, continuarão armados? O desarmamento, facilitará a ação policial? E aqueles subornos, vamos ficar livres deles? É possível (re)construirmos um país livre de armas de fogo e tudo o que as envolve? Como seria bom se pudéssemos prever o futuro tim-tim por tim-tim e assim evitar erros no presente...

Quanto ao desarmamento e toda a campanha, vale a pena ler pontos de vistas diferentes para que possam chegar a uma conclusão final. Eu prefiro não comentar muito sobre isso agora, se tudo der certo, posteriormente, publico uma dissertação a respeito disso, com a minha opinião, por enquanto, indico dois sites de opiniões opostas a respeito do tema:
Comitê Paz
Desarmamento: A Falácia

É sabido que as bombas atômicas lançadas no Japão pelos EUA durante a Segunda Guerra Mundial não eram necessárias, então, surge outra pergunta, por quê? Simples, demonstração de poder. O ex-presidente norte-americano H. Truman ao ser informado do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima, disse: "Este é o maior evento da história". Já o alto oficial cujo nome em código era Manhattan District Project, afirmou: "Era importante que a bomba atômica fosse um sucesso. Havia-se gastado tanto para construi-la...Todas as pessoas interessadas experimentaram um alívio enorme quando a bomba foi lançada". Assim, essas afirmações são claras demonstrações do significado dessas bombas, ou seja, o governo norte-americano ingnorava os princípios éticos (já que se tratava do fim de uma guerra, em que já se tinha a certeza dos "vencedores e derrotados") para impor a sua primazia político-militar no mundo, que, por sua vez, daria início ao período de Ordem Bipolar, determinado Guerra Fria, onde se contrapunham duas grandes potências mundias: EUA (capitalismo) X URSS (socialista), um período de "equilíbrio do terror" ou, de "guerra improvável, paz impossível".


 "A primeira bomba 'A' da história foi lançada pelos EUA sobre a cidade de Hiroshima no dia 06 de agosto de 1945. A explosão ergueu um cogumelo de devastação de 9000 metros de altura, gerando um calor perto de 5,5 milhões de graus centígrados. Na época, Hiroshima tinha 330 mil habitantes, o bombardeio matou cerca de 130 mil e feriu outras 80 mil pessoas".

Atualmente, as discussões em torno do enriquecimento de urânio e da geração de energia nuclear estão em evidência, principalmente pelo triste ocorrido no Japão. Então, ilustro com outro video a respeito dos testes nucleares, que nos faz imaginar o poder de destruição incrustado nessas bombas, que poderiam até mesmo disseminar a humanidade. O problema é: quando, afinal, o homem vai perceber que as guerras, as bombas atômicas, não passam de armas autodestrutivas incontroláveis? Quando o homem vai usar a ciência envolta nas bombas em favor da humanidade, em prol do bem estar social?




 Detalhe: Einstein no final indica uma expressão de: "como o homem é capaz de desviar progressos da ciência do bem para o mal?!" Já que Einstein era contra os testes nucleares e as bombas atômicas, inclusive, se não me engano, ele chegou a ganhar um Prêmio Nobel da Paz.





O filme O Senhor das Armas se passa nesse período (de Guerra Fria), e, trata sobre a indústria bélica e seus reflexos no mundo. Com uma crítica de alta qualidade, o filme é tanto para quem gosta de cinema e "bons filmes" como para quem gosta de filmes políticos, com vies de engajamento social e duras críticas, que vão desde o alto escalão da sociedade e do governo aos simples cidadãos envolvidos ou não em guerras - ou disputas de poder, mesmo que seja em um bairro ou favela (mais próximo da nossa realidade). Retrata o que se passava por trás das duas superpotências já citadas, suas indústrias bélicas, seus poderios e os efeitos de suas intervenções nos choques indiretos - guerras quentes que ocorreram sobre suas influências em outros territórios.



 


Enfim, a história nos mostra o quanto o progresso nos traz consequências boas e, também, ruins, tudo depende de como o homem irá usar o poder que tem em mãos. O mesmo posso dizer das armas, o homem a tem, só resta saber se vai ou não usa-la em prol do bem estar - por mais difícil que seja imaginar bem estar através de armas de fogo, pois sempre alguém ou algum animal termina machucado. Os filmes ilustram nossa realidade, e, assim, percebemos que vivemos cercados por tragédias. Imaginem quantos casos não noticiados existem a respeito de vítimas inocentes de armas, bombas, guerras e tudo o mais que o homem possui de ruim em seu interior e o externa através da violência, destruição e atos completamente irracionais. Espero que essa postagem de hoje sirva como reflexão para todos os que lerem e, a partir das reflexões, mudanças para o bem, por menores que sejam, ocorram a nossa volta, para podermos (re)construir um país, um mundo melhor, isso é o que verdadeiramente necessitamos!
Boa Quarta a todos!

domingo, 3 de abril de 2011

Somos todos VIPS?

Consequência de uma pausa...

Sábado passado tive o prazer de ir ao cinema e assistir ao filme VIPS (Mais informações - site oficial). Um filme nacional, com Wagner Moura como protagonista, direção de Toniko Melo e baseado no livro “VIPS – Histórias Reais de um Mentiroso” escrito por Mariana Caltabiano. Perdi os minutos iniciais do filme, mas deu para acompanhar normalmente. O final é simplesmente surpreendente, ficam todos olhando uns para os outros e se perguntando "uai, acabou?", "como assim?", "não, calma aí..." e tentando entender (ainda mais que sábado passado foi o dia da “Hora do Planeta” e as luzes ao fim da sessão não foram acesas!). Portanto, mais uma dica minha para essa semana, esse, sem sombra de dúvidas, é um filme que todos deveriam assistir, corram, ainda está nos cinemas, e, vale muito a pena!

Bom, vou tentar não contar muito as cenas do filme, caso alguém que esteja lendo ainda não tenha assistido, e também tentarei não contar o final, o que é extremamente difícil, rs. Mas, posto aqui a sinopse do filme: Desde pequeno, Marcelo Nascimento da Rocha tem muita dificuldade de viver com sua identidade. Seu maior prazer é imitar as pessoas e se passar pelos outros. Alimentando o sonho de aprender a voar e tornar-se piloto como o pai, Marcelo foge da casa da mãe e começa a maior aventura de sua vida, cada vez se passando por uma pessoa diferente. Até dar o maior golpe de sua vida: fazer-se passar pelo empresário Henrique Constantino, filho do dono da companhia aérea Gol, em uma grande festa no Recife.

O filme faz uma análise da crise de identidades que estamos vivenciando no mundo atual. Embora pareça uma frase e um tema clichê é muito interessante. É um exemplo da inversão e deturpação de valores da sociedade atual, como também das patologias mentais que afetam muita gente mundo afora. Fala sobre aquele tema que eu já citei no post intitulado "Abandono", o qual a pessoa habitua-se a mentir e com o tempo ela mesma começa a acreditar nas próprias mentiras. Fala sobre aquela busca eterna pelo "meu eu", pela verdadeira identidade.

Eu sei muito bem que não é fácil “descobrir-se”, até mesmo porque, todos os dias, passamos por inúmeras situações, muitas dessas inusitadas, novas, que nos proporcionam chances de autoconhecimento. Como já disse Clarice Lispector: “Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre...”, ou, “Sou como você me vê, posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de como e quando você me vê passar”. Ao nascermos somos completamente influenciados pela nossa família, pelas pessoas que nos cercam. Inclusive nossa voz depende das pessoas com quem crescemos e o modo como elas se comunicavam conosco. Desse modo, nossa identidade e a maneira como nos vemos também dependem dos outros. No mundo de vestibulandos em que vivo conheço pessoas que dizem prestar vestibular para tal curso somente porque é imposição dos pais, e seus olhos brilham quando falam nos cursos que realmente desejariam fazer. Essa é uma inversão, é uma fuga do que realmente se é. Acredito muito em vocação, é impossível uma pessoa ser feliz e fazer bem seu trabalho caso não goste dele. Portanto, pessoas como essas que eu conheço, que sempre tem alguém para dizer como ser, como agir, e esses “comos” são sempre diferentes do que o interior da pessoa gostaria de ser e agir, serão frustradas, correrão sérios riscos de adquirir doenças e se dar mal na vida. Mais uma vez mostro a importância da família na formação de um indivíduo, ah se todos tivessem consciência disso!

Em VIPS, o Marcelo (Wagner Moura), encanta-se pela atividade do pai, mas, ao contrário de casos da vida real, seus pais não o obrigam a gostar de aviação. É inerente a ele essa vontade de voar, pilotar aviões, conhecer lugares, fazer carreira nessa área. Entretanto, frustrações, fracassos e dificuldades surgem na sua trajetória de vida, mudam seu rumo e tornam a realização desse sonho quase impossível. Já que, no fundo, ele nunca será como seu pai. Aquela máxima de que mostramos quem realmente somos a partir das nossas ações e escolhas correspondem ao que o filme mostra, visto que a partir do momento em que o personagem toma uma única decisão sua vida muda completamente. E, a partir dessa decisão, ele se encontra em um mundo que até então ele desconhecia e que precisa mentir para poder continuar a viver. E, é assim que ele segue “ganhando” a vida.

No fim, ele começa a assumir, de modo literal, a identidade de outras pessoas. Nem mesmo se reconhece como Marcelo Nascimento da Rocha. A história é simplesmente fantástica, surpreendente. O olhar do diretor, o modo como o enredo é construído, a interpretação do Wagner Moura (de quem eu sou uma super fã) e como tudo toma seu rumo, as pessoas com as quais ele cruza pelo caminho, tudo perfeito, em harmonia. Confesso que demorei a perceber o quanto esse filme é bom, denso e tudo o mais. Só no outro dia fui capaz de tirar algumas conclusões, fazer algumas interpretações e compreender fatos, inclusive do nosso cotidiano.
O filme é um traço da realidade. As pessoas, aos poucos, vão deixando de ser quem realmente são para irem à busca de fama, sucesso, dinheiro, reconhecimento, e, ao seguirem nesse caminho se perdem, esquecem-se da própria essência, do que já foram um dia, do que já aprenderam, dos valores passados pelos pais – ou não. Por fim, Marcelo é Constantino. Para ele, é como se sempre tivesse sido assim, como se fosse uma verdade absoluta (embora eu esteja de acordo com os sofistas, mais ainda Protágoras, de que verdade absoluta não existe e etc, mas, isso não vem ao caso), e, pior, os outros acreditavam facilmente nisso. Para completar a história, a mulher considerada louca, drogada, sempre excluída, criticada e infeliz, foi a única a ver o quanto Marcelo era “bom ator” (segundo ela, porque para ele, não era uma interpretação, estava sendo apenas ele mesmo – sim, é um pouco complicado explicar essa confusão, e aí, imagino a confusão na mente do Marcelo, rs). Enfim, só ela percebe que o que ele tem é patológico, não é uma mera “brincadeira”, farsa, ou, mais um golpe na elite. Também vale ressaltar que o clímax se passa em época de carnaval, o que tem muito a ver com as fotos no salão da mãe, inclusive com uma das fotos da mãe do Marcelo, isso eu deixo para vocês verificarem e tirarem suas próprias conclusões ao assistirem ao filme, aviso com antecedência, é “pesado” o que se pode inferir.

No fundo acredito que todo mundo já mentiu, brincou de imitações, fingiu ser quem não era numa situação que poderia terminar em “tragédia”, enfim, todo mundo já teve “seu lado Marcelo”. Porém, quero muito acreditar que nunca ninguém que esteja lendo tenha tornado isso uma verdade. Como já disse outras vezes, não dá para fugirmos do que somos, ninguém é feliz dessa maneira, sem contar que não é certo, de forma alguma, fazer algo do tipo. O maior erro que podemos cometer não é enganar aos outros, porque com os outros podemos nos reconciliar, pedir perdão, perdoar, mostrar que mudamos através de gestos, mas, o maior erro que podemos cometer é enganarmos a nós mesmos. Esse erro não tem volta, vai sempre pesar na nossa consciência, nos piores momentos virá à tona e pode acabar com nosso interior, nossos sentimentos e com tudo o que já construímos, inclusive, nossa formação como indivíduos, nossos valores.

Finalizando, o filme mostra muito mais do que escrevi aqui. Não tem como eu escrever tudo aqui porque perderia a graça para os que ainda não assistiram ao filme. Então, fico nessa superficialidade mesmo, só postando como dica, porque vale muito à pena. Mais um filme nacional que merece prestígio. Se desejarem mais um motivo para assistir, podem ir com a certeza de que ouviram uma trilha sonora ótima e darão algumas boas risadas. De qualquer maneira, quem nunca quis ser um VIP? Quem nunca foi ou é um VIP? Pois sim, se ainda não somos VIPs, seremos...

O filme nos pergunta: "Quem você quer que ele seja?". Mas, ao sair do filme, nós nos perguntamos: "Quem realmente eu sou?". Ou, "como eu mudei", "como eu tenho fugido do que realmente eu sou". Assim, ele também serve de autoavaliação, o que fica a critério de cada um.

Como devem ter percebido, eu gostei bastante do filme, assim como em Cidade dos Anjos há muito que se analisar, há uma grande carga psicológica, tanto que no site oficial do filme vocês poderão encontrar mais sobre essa análise psicológica, com a participação de psicanalistas e etc.

Aqui deixo o trailer para aguçar - ou não - ainda mais a vontade de vocês:



sexta-feira, 1 de abril de 2011

"Cidade dos Anjos" e o ser humano

Consequência de uma pausa...

Sim, hoje, em plena sexta-feira, tirei uma folguinha, e que folguinha, diga-se de passagem. Parei apenas para tomar um sorvete e sentir-me um pouco mais refrescada diante do calor infernal que está fazendo em Goiânia, e, enquanto isso, comecei a mudar os canais na tv aberta (vale ressaltar que fico a maior parte do tempo mudando de canal, é difícil encontrar algo que me satisfaça, a não ser minhas séries prediletas e filmes em geral, rs) e me deparei com o início de um filme no SBT (por incrivel que pareça, assisti SBT, rs). Li o título: "Cidade dos Anjos" e comecei a assistir, fui assistindo, assistindo, assistindo e me interessando cada vez mais. Numa sexta-feira, praticamente 18h uma emissora de tv transmitir um filme com carga psicológica tão densa como esse é quase inacreditável. Imagino que muitos assistam devido ao romance, mas, confesso, uma das características do filme que menos me chamou a atenção foi justamente o romance (como sempre, eu, vendo tudo com olhar extremamente racional...).

Antes de opinar mais gostaria de deixar bem claro: ASSISTAM AO FILME, é simplesmente perfeito, vale muito a pena! (City of Angels. 1998. Romance. EUA. Direção de Brad Silberling. Com Nicolas Cage, Meg Ryan, Andre Braugher, Dennis Franz)

Continuando...No início você não dá muita atenção ao filme, ao tema central e chega a imaginar: "ah, vai ser só mais um daqueles filmes românticos clichês..." e, então, se você continuar verá o quanto estava enganado. O filme vai além de qualquer mera perspectiva, ele analisa os sentimentos humanos e a falta dos mesmos, analisa o sentir, os gestos, a ânsia do homem de ter o que o outro tem, de quer experimentar o que o outro experimenta, de querer provar de tudo na vida, analisa a invisibilidade social, os dilemas a que o ser humano é exposto no decorrer de toda a vida, bem como o peso e as dificuldades das escolhas, o comportamento humano diante do livre-arbítrio, a função do homem na sociedade, a fé, a vida, a morte, o sobrenatural e as dúvidas constantes.

Um anjo (Nicolas Cage) que não pode sentir a dor, o calor, o vento em seu rosto, o toque na pele ou o sabor dos alimentos, mas, que se sente atraído pela médica cirurgiã (Meg Ryan) e seu sofrimento ao perder um paciente - que o anjo teve a obrigação de levar "dessa para melhor" -  na mesa de cirurgia. Um ser, de certa forma sobrenatural, imperceptível e invisível aos olhos de quem não está a beira da morte, mas que com sua função gera o sofrimento e a dor nos outros. Bom, o resto da estória, o clímax e o desfecho não vou contar, visto que muitos podem ter anotado para assistir e se eu contar perde a graça. Porém, posso dizer que o filme é perfeito nas ilustrações dos dilemas humanos.

A médica deixa de ser totalmente racional e científica e passa a acreditar em algo superior, passa a acreditar que a vida não está só nas mãos dela, que algo de outro nível interfere na "nossa dimensão", passa a se perguntar o poder que ela possui para salvar vidas, a função que ele deve exercer na sociedade e até aonde ela pode ou é capaz de ir na sua profissão. Surge aí o confronto entre a fé e a razão, o real e a crença, a vida e a morte e quem detem o poder de tudo isso. Até que ponto devemos procurar por algo ou alguém para culpar de uma ação desastrosa? O tema de redação dessa semana foi sobre crendices populares e superstições e eu terminei o meu artigo de opinião analisando justamente essa pergunta, que é muito pertinente, mas não vem ao caso, é apenas mais uma pergunta retórica.

O anjo percebe-se amando uma mulher mortal, de "outra dimensão", que pode chorar, rir, sentir o vento ao andar de bicicleta, sentir a areia, as ondas e o gosto salgado do mar, tudo o que ele não é capaz. Permanece invisível diante do mundo, a exemplo de grande parte da população que por quesitos financeiros, estereótipos, culturais, sociais e etc também são invisíveis, inúmeras pessoas cruzam seus caminhos, entretanto, não fazem o mínimo esforço para olhá-las e lhes direcionar ao menos um "bom dia". Quanto custa ser sociável, simpático, educado, demonstrar um pouco de bondade e bom humor? De acordo com o que vejo, custa muito, muito caro. Assim, a condição de invisibilidade do anjo mostra, contraditoriamente, o quanto ele se sente mal, inferior, mesmo que seja imortal e, talvez, esteja em um "nível superior" aos "reles mortais". Ele começa a se perguntar: por que não aparecer? Por que não aparecer para ela? E, desse modo, aproxima-se ainda mais do mundo terreno.

No filme, é claramente perceptível a questão e as dúvidas em torno do livre-arbítrio a que somos submetidos no dia-a-dia. Todo homem tem esse direito, acontece que nunca tivemos aulas para aprender a lidar com ele, cotidianamente não recebemos bons exemplos, não somos bem instruídos e, portanto, não sabemos nos relacionar com ele, o que nos torna passíveis de manipulação e totalmente frágeis. O livre-arbítrio nos leva a fazer escolhas próprias que gerarão consequências imediatas ou futuras. E é assim que vivemos toda a nossa vida, escolhendo, sendo escolhidos e sofrendo as consequências. O anjo tem que fazer escolhas que poderão mudar totalmente sua história e a "história do céu", sendo que só ele tem esse poder de decisão. A médica faz decisões dede quando nasceu (qualquer semelhança conosco é mera coincidência, rs) e continua a fazer na profissão e na vida pessoal, são decisões que como as do anjo podem mudar totalmente a sua vida. Dessa forma, dilemas a respeito desse tal livre-arbítrio são constantemente debatidos no decorrer do filme, com exemplos de outros personagens que também tiveram que decidir o rumo da vida, o que os levarão a uma redefinição do seu papel no mundo. (Como já disse, não vou explicitar quais seriam essas decisões e quais as mudanças, visto que quando assistirem ao filme irão compreender perfeitamente o que estou escrevendo).

Enfim, não posso e não devo prolongar-me nessas discussões, uma vez que além de polêmicas requereriam tempo e vocês ainda vão assistir ao filme, caso ainda não o tenham feito. Resumindo, o filme trata de assuntos polêmicos, que nós enfrentamos no dia-a-dia, mas, que muitas vezes nem mesmo reparamos ou paramos para pensar e refletir. A fé é colocada em evidência diante da morte, impossível de ser revertida pela razão e a ciência, ambas formadas em séculos de estudos. Além disso, achei perfeita o modo como esse conflito foi explorado, num ambiente hospitalar e na mente de uma médica cirurgiã. O homem assume inúmeras funções no meio social e tudo depende do livre-arbítrio, essas funções, portanto, podem ser modificadas constantemente. As dúvidas são inerentes ao ser humano, não tem como fugirmos delas, e, também, são perfeita e peculiarmente apresentadas no filme. O modo como devemos lidar com as emoções, os sentimentos, as sensações, a vida, a morte e a "possível ressurreição" (como estar a beira da morte e salvar-se, ou, recomeçar a vida, com modificação da sua função, dos hábitos, etc) são frisadas brilhantemente. O modo como o homem sempre acha que o que é do outro é melhor, que deve sentir todas as emoções e passar pelo maior número de experiências que nos cercam. A impotência de alguns perante as atitudes do próximo, que não possuem maiores problemas para realizarem o que bem entenderem, também é bem retratada.

Dizem que o homem é o produto de suas escolhas, o que eu concordo pefeitamente, e, o filme nos ilustra. O filme é tão bom que o invisível torna-se visível, o imortal torna-se mortal, o mortal torna-se imortal, o sobrenatural se sobrepõe ao real, as dúvidas geram mais dúvidas, os sentimentos afloram num ser que não pode sentir e, no fim, o medo de viver, de fracassar, de sentir, de mudanças, do novo, não interferem nas escolhas dos personagens, porque, para eles, o que importa é viver, apenas viver e sentir todos o maior número de momentos possíveis, até mesmo porque, como seria viver sem sentir ou sentir sem viver todas as emoções? (Nesses momentos imaginei o coração de um cego, um surdo, um mudo, um aleijado, um paraplégico, um tetraplégico, e por aí vai...ao assistirem ao filme...sem mais comentários!).